Estudo mostra como vendedores ambulantes africanos são submetidos à exclusão social em São Paulo
Pesquisa realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP analisa como os imigrantes buscam se inserir na sociedade, por intermédio do comércio, enfrentando barreiras de idioma, regularização e racismo

Vendedores ambulantes no Largo da Concórdia no Brás - Foto: 2RPD2015- Wikimedia
Com a finalidade de analisar a chegada e permanência dos imigrantes oriundos do continente africano em São Paulo, especificamente os que atuam no comércio de rua, no bairro do Brás, o sociólogo moçambicano Abobacar Mumade Ali desenvolveu sua tese de doutorado intitulada O papel do comércio informal na integração social do imigrante em São Paulo: O caso dos vendedores ambulantes africanos no Largo da Concórdia. O estudo foi elaborado no Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades (PPGHDL) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFCLH) da USP, sob a orientação do professor Paulo Daniel Elias Farah.
Abobacar Mumade Ali é formado em Sociologia pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em Moçambique. Em 2012, veio ao Brasil para cursar mestrado em Sociologia na USP. Concluiu em 2014, com a dissertação: As empregadas domésticas em Moçambique: cor e classe numa sociedade pós-colonial. Em 2020, iniciou o doutorado na FFCLH e defendeu sua tese em 2025.
“A primeira vez que fui ao Brás fiquei impressionado com o número de vendedores ambulantes africanos. A partir daí fiquei com uma curiosidade sociológica e procurei entender o universo do comércio ambulante em São Paulo, principalmente no Largo da Concórdia. Queria saber o que motiva os imigrantes a procurar esse tipo de comércio e no Brás.”
Comércio informal no Largo da Concórdia
Em busca de melhores condições de vida, os que escolhem como destino o Brasil são, na grande maioria, jovens procurando oportunidades de emprego. Para estudar esse fluxo, Ali realizou entrevistas com 14 vendedores ambulantes, todos imigrantes africanos de diferentes países, do sexo masculino, no local foco da análise: o Largo da Concórdia, no Brás. Entre os entrevistados, a maioria vem do Senegal (43%) e da NIgéria (14%).
Historicamente imigrante e operário, o bairro do Brás fica na região centro-leste da cidade de São Paulo, e hoje é muito conhecido pelo comércio de rua. O Largo da Concórdia é uma praça pública da região que se tornou ponto de intenso fluxo de pessoas e compras. Todo tipo de mercadoria é vendida, roupas, utensílios domésticos, tecidos e qualquer objeto em contexto de demanda pelos consumidores.
Em entrevista ao Jornal da USP, o pesquisador afirma que a presença de ambulantes no Largo se dá pela localização acessível para os vendedores, além do comércio abrangente e atrativo que aumenta esse fluxo. Sua afirmação é evidenciada ao identificar os entrevistados como moradores próximos da região, o que possibilita o fácil acesso do local de trabalho com o transporte público.
Além disso, percebida a ausência de mulheres na função, a tradição cultural de homens como provedores, na visão dos entrevistados, é relatada. Mesmo fora do país de origem, os comerciantes são fonte de renda para seus familiares na África. Depois, quando um imigrante está minimamente estabelecido aqui, chama outro parente para se estabelecer no Brasil e ajudar a gerar renda.
“Estou aqui já tenho mais de um ano. Cheguei devido à influência dos meus irmãos. Eles já estavam aqui, o mais velho tem 29 anos e está no Brasil já há muito tempo. Ele está aqui há (franzindo a testa) uns sete anos e trouxe o Jallou, que tem 27 anos, e depois estou eu. Estando nós três aqui, conseguimos ajudar a família em África”, diz Suleimane, imigrante senagalês, em entrevista ao autor da tese.
Estratégias de integração
Ao chegar ao País, os imigrantes relataram a dificuldade para se legalizar, encontrar um emprego formal, comunicar-se com brasileiros e as situações de preconceito racial e xenofobia que sofreram. Por isso, o comércio informal é visto como uma das poucas oportunidades para eles.
No caso do preconteito sofrido, o estado ilegal provoca medo e impede que qualquer ação seja tomada, e a denúncia nunca acontece. Durante a pesquisa, o autor constatou a exclusão social a que são submetidos, impedidos de adentrar espaços que não são considerados adequados a eles, como empregos formais.
Por isso, a pesquisa traz à tona a interação entre o vendedor ambulante e o comprador brasileiro, dinâmica essa que pode contribuir para a aceitação e a integração dos imigrantes africanos no meio paulistano, incluindo-os num novo grupo econômico e social. Além de ser o meio pelo qual buscam o seu sustento, possibilita a troca de experiências com os brasileiros.
A fonte principal para iniciar essa relação é o idioma. “Não ter conhecimento do idioma falado no país de chegada constitui uma barreira para integração dos imigrantes, pois conhecer a língua é o fator fundamental para a inserção na sociedade paulista”, como escreve Abobacar Ali em seu estudo. Língua essa que também impede a inserção no trabalho formal.

Comerciantes africanos vendendo suas mercadorias na calçada no Brás - Foto: Reprodução/Tese do Autor
Usado para a permanência e legalização no País, o casamento entre imigrantes e brasileiros é outro meio que se apresenta viável à integração social. São citados depoimentos de jovens solteiros que conheceram brasileiras e se casaram, seja de modo afetivo ou fictício. Ou seja, essa ação acontece em contexto religioso e civil, mas também de fachada, em troca de dinheiro, para facilitar a permanência no Brasil.
A outra prática de integração social é o associativismo. Em busca de uma identidade coletiva com seu país de origem, os imigrantes se unem em forma de grupos de apoio, até mesmo no WhatsApp. As redes sociais são usadas como meio de comunicação efetiva que gera relações de solidariedade e acolhimento. Assim, as associações agem para diminuir as dificuldades que possam surgir no dia a dia de cada um e aumentar a sensação de pertencimento.
Com isso, o pesquisador afirma que é necessário elaborar políticas públicas inclusivas e efetivas, principalmente para ensino da língua. Um caminho para que essa integração de fato ocorra.